E quando a cultura incomoda?
- João Paulo Guma
- 8 de fev. de 2014
- 3 min de leitura

Num país onde a educação oferecida e gerida pelo poder público é tão insuficiente para a formação profissional e ideológica da população, resta aos manifestos e manifestações culturais o papel de levar o conhecimento e a noção de coletividade àqueles que fazem parte de um meio. Tal como uma religião, só que sem dogmas.
Mais que livros didáticos, os pontos onde a cultura, não importa em que mídia, pode ser divulgada, vivida e consumida agregam mais atenção e atingem mais público, multiplicando saberes e promovendo um tipo de educação impossível de ser contradito ou combatido. Para os que buscam consolidar a ignorância de um povo, e assim controlá-lo de forma mais eficaz, esses locais são tão perigosos quanto a melhor das universidades.
Aqui em Recife, um desses lugares é em torno de uma Rural. Isso mesmo, um carro velho, mas limpinho, digo até que lindo, que o celestialmente inclassificável Roger de Renor utiliza como signo, uma fenda dimensional que nos leva a um programa itinerante, que está mais para um movimento, para uma filosofia: o Som na Rural.
Para quem é da cidade e região, nem preciso falar sobre os benefícios que esse projeto trazia para a nossa população, que cada dia está mais carente, sobretudo, de respeito por parte de seus governantes.
Para quem não é, basta você saber que Roger promovia, de forma gratuita, show com ótimos artistas locais, debates, enfim, mobilizava gente para curtir e para pensar a cidade de uma forma diferente, de uma forma conectada com nossas verdadeiras identidades e necessidades. Como se não bastasse, o Som na Rural incentivou a ocupação do espaço público por parte da nossa população, jovem ou não, o que, numa cidade fatiada e prometida aos grandes empresários como a do Recife, é um crime inafiançável.
Óbvio, é imperdoável infligir o artigo 181, inciso VIII, do Código de Trânsito Brasileiro. Colocar a Rural em cima da calçada é uma infração grave, R$ 127 de multa e 5 pontos na Carteira. É um afronte àqueles que zelam pela moral no trânsito em nossa sociedade. Uma imoralidade, tanto quanto os ensaios de Maracatu (que coincidência, também Rural) que ousam invadir as madrugadas da nossa Zona da Mata Norte e desobedecer nosso toque de recolher cultural.
Nem o Carnaval, meus amigos, está livre da censura dos nossos governantes, que não só proíbem manifestações a partir das 2 da manhã, como também vetam concentrações de alguns blocos e alteram o trajeto de outros, sem diálogo, apenas com ordens. Eu, frequentador apaixonado do Bloco do Nada, que tradicionalmente faz sua prévia no Mercado da Boa Vista, não pude brincar com meu bloco amado por proibição da Prefeitura, que não apresentou nenhum motivo cabível para tal ação.
Senhores, a verdade é que nossas festas populares estão cada vez mais camarotizadas, elitistas e vilmente seletivas. Tal como o resto da cidade, fatiadas entre aqueles que fazem parte dos interesses de governantes megalomaníacos, coroneizinhos de um novo século que mais parece que só chegou para nós. As práticas deles continuam as mesmas.
Ontem foi o Maracatu, hoje a Rural de Roger, sabe-se lá o que será atacado num futuro próximo. Não vejo esses episódios como fatos isolados, mas como uma forma orquestrada de oprimir e, acima de tudo, isolar e afastar nossa gente daquilo que ela realmente é feita.
Para vocês, peço apenas que defendam-se e ataquem de volta, pois a cultura é alimento para alma, é diversão, mas está bem longe de fazer o papel do famigerado pão & circo, que forças maiores e nefastas querem nos impor. Com o perdão do pleonasmo, no nosso intangível primordial, ninguém mexe!








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