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Sim, vai ter Copa. E que sorte, a nossa!

  • João Paulo Guma
  • 11 de jun. de 2014
  • 3 min de leitura

Não pretendo ignorar os superfaturamentos, as obras inacabadas, a derrota enquanto organizador de um evento internacional que a Copa vai nos proporcionar. Pretendo apenas comemorá-las.


Não tenho desvios éticos suficientes para comemorar desgraças sem enxergar consequências benéficas, e pra mim é fato: os aproximadamente 8 bilhões de reais supostamente desperdiçados com o Mundial talvez tenham educado mais o povo brasileiro dos que as centenas de bilhões gastos com a “educação oficial” de 2010 pra cá.


Tal como a França, a Alemanha e mais recentemente a África do Sul, o Brasil não será mais o mesmo após organizar este famigerado mundial.


Em 98, o povo francês, deveras influenciado pelas correntes de extrema direita, rejeitava veementemente a presença dos imigrantes, mas se viu invadido por estrangeiros, muitos que cometiam o pecado imperdoavelmente mortal de não falar francês. Pior, descobriram-se apaixonados por um time repleto de imigrantes e descendentes, vislumbrados e agradecidos pela existência de um certo filho de argelinos, nascido no subúrbio de Marseille.


O espírito francês foi tocado pelo conceito de diversidade e de tolerância de forma, talvez, irreversível. A Copa organizada e vencida, sem dúvida, foi um marco para o país, para o povo e para a nação.


Na Alemanha, em 2006, via-se um país numa busca quase imperceptível pela sua identidade enquanto nação unificada enquanto também era visto com certa antipatia por muitas pessoas, por motivos vários. Era um poderoso país que não se reconhecia enquanto nação, enquanto povo.


A Copa, estrategicamente distribuída entre as antigas divisões orientais e ocidentais, serviu para que o mundo conhecesse o povo alemão e, acima de tudo, para que o mesmo se descobrisse, como numa terapia freudiana coletiva, distribuída em 64 sessões de 90 minutos com possibilidade de prorrogações.


Se o Mundial de Rugby organizado e vencido pela África do Sul, em 95, foi o momento de promover, senão uma união, uma tolerância entre negros e brancos utilizando um esporte praticado pelas elites como artifício, a Copa de 2010 foi uma tentativa de integrá-los em torno de um esporte praticado pelas camadas mais humildes de sua população, o esporte mais popular do mundo.


Se os resultados em campo não foram satisfatórios, a África do Sul se apresentou ao mundo enquanto nação e enquanto representante de um continente historicamente explorado e esquecido pelos países ricos e pelo seus próprios governantes, mas que consegue sobreviver, desenvolver-se e reafirmar-se como berço da humanidade.


Já 2014 está ensinando muito para o Brasil e o Brasil está ensinando muito para o mundo. Nem todos os ensinamentos são daquilo que se deve fazer, mas enfim, é Brasil (termo inexoravelmente brasileiro). A Copa não tem essa intenção, mas essa reação: forjar aquilo que talvez venha a ser o esboço de uma nação brasileira, ensinar ao povo que protesto não é coisa de vagabundo, mas de cidadão e, o que não vejo muitos comentarem acerca, mostrar uma América do Sul democrática, já que a última vez que um grande evento foi realizado aqui foi a Copa da Argentina, em 78.


Sim, vai ter Copa. Sim, tem que ter protesto! O país é enorme, há como se fazer tudo isso sem prejudicar ninguém. Deixemos da hipocrisia de que uma nação tem como base um povo patriota, ela se faz com um povo consciente do poder que tem, de seus direitos e deveres para consigo e para com o próximo. Como o Samuel Johnson bem dizia: O patriotismo é o último refúgio de um canalha.

 
 
 

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