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Carta aberta à Dilma Rousseff

  • João Paulo Guma
  • 27 de out. de 2014
  • 3 min de leitura

Prezada Dilma,


Venho através desta te parabenizar, mas também dizer que nossa lua-de-mel acaba hoje.


Tua vitória também foi a minha. Não estou dizendo, porém, que eras a candidata dos meus sonhos, que concordo com as coisas têm sido feitas em seu governo. As falhas foram inúmeras – políticas, técnicas, morais – mas nenhuma que habilitasse teu adversário e as forças que ele representa a tomar teu posto a si. Tua vitória me deu uma sensação muito mais de alívio do que de felicidade.


A questão é que antes das eleições, enquanto jornalista, eu havia estabelecido a não-militância. Achava que a eleição estava ganha por ti, mas aí Dudu bateu as botas e tudo desandou. Marina surgiu com aquele papo de butico dela. Mudei de ideia. Optei. Militei.


Nos livramos da maga véia, mas aí o homem do helicóptero nevado ganhou força. Durante o período que antecedeu o segundo turno eleitoral, vi como se bipolarizaram as opiniões sobre política, entre os alienados raivosos que nunca haviam militado politicamente por nada, eleitores de Aécio, e nós, os petralhas, os supostos defensores da corrupção.


Me assustei com o ódio dessas pessoas, com os argumentos desconexos, ignorantes, preconceituosos, além do desconhecimento da história e descomprometimento com a vida política do país. Fiquei apavorado com a possibilidade dos ideais dessa gente encontrarem um representante fiel.


Esse foi o motivo pelo qual não só votei em você como também militei contra Aécio, bem mais num veto às hordas malignas representantes da oligarquia brasileira do que em favor dos inegáveis avanços do PT. Além disso, você ganhou minha simpatia quando tirou uma foto tendo a bandeira do meu Santinha nas mãos.


Mas aí, minha fia, vencemos o atraso e você prometeu em seu primeiro discurso a reforma política. Ela é imprescindível, mas não só a política e não só as reformas.

Chegou a hora de cobrar de quem deve. Por exemplo, os milhões sonegados da Rede Globo, que fez uma clara campanha anti-PT. Há de se processar a Revista Veja pela sua história de terrorismos eleitorais. O que ela cometeu sexta-feira foi um crime. Não é retaliação, é apenas mostrar que não se pode atacar um estado de direito de forma escrota impunemente. Independente disso, não se pode acusar as pessoas sem provas.


Há de se dar um novo direcionamento aos meios de comunicação e à comunicação social como um todo no país, com novas políticas de acesso e produção. Com regras claras e punição severa a quem não as cumpre. Com atuação do Governo, mas sem aparelhamento do Estado.


Também teve muito político por aí que teceu comentários criminosos, homofóbicos, preconceituosos, antes, durante e depois das eleições. Ficou fácil saber quem estava ou não no lado negro da força. Bolsonaros e Feliciânus da vida foram vistos aos milhares. Não creio que se deva dar moleza para esses. Não é perseguição, é deixar claro que cada um deve assumir a responsabilidade das bobagens que fala.


E por falar em Bolsonaros, chegou a hora de levantar a tampa da cova da Ditadura, mostrar o quão salafrários, desumanos e escrotos foram eles durante o período que controlaram o Brasil, além de descobrir onde foi parar a grana sistematicamente roubada do país, para acabar de vez com os mitos de que havia ordem, não violência, e que não havia corrupção durante o Regime.


E por falar em Feliciânus, chegou a hora de fechar o cerco contra as igrejas evangélicas, faculdade de charlatões, verdadeiras organizações criminosas, lavanderias financeiras, trampolins para o poder. Há de se punir quem desrespeita o Estado Laico, quem ataca as minorias e é contra as liberdades. Há de se extinguir a profissão de fiscal de cu, sobretudo.


Além disso, o papo de que a corrupção só aparece por haver investigação independente até cola nas eleições, mas pra tudo tem um limite. As políticas anticorrupção têm de ser sérias e irrevogáveis, os investimentos em quem vai investigar e punir devem ser maciços e assertivos. Não pode ter boquinha nem para a situação, nem para quem vier a governar.


Saio da função de militante e assumo, tal como nos últimos 12 anos, a de fiscal do governo, de crítico a tudo aquilo que enxergar de errado ou não suficientemente bom. E sempre acharei que não está suficientemente bom.


Boa sorte e segure o cu.

 
 
 

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